A Guerra dos Sexos

Coluna: Patrick Fernando

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A Guerra dos Sexos

Quem lucra quando ninguém mais se suporta?
Houve um tempo não tão distante em que homens e mulheres olhavam um para o outro e pensavam: "Vamos construir algo juntos". Namorar, casar, comprar uma casa com aquele sofá que ninguém sabe montar, ter filhos, brigar por causa da torneira que pinga e envelhecer reclamando do volume da TV. Era isso o tal do plano.

Hoje, muita gente olha para o outro lado e pensa: "Melhor não". Não por maldade, mas por medo. Medo de se machucar, de se endividar, de escolher errado, de postar demais, de confiar de menos. E para uma elite que adora uma boa desunião, essa divisão é um prato cheio. Literalmente. Serve com batata frita, porque ninguém mais cozinha em casa.

Crie dois lados (e venda camisetas para os dois)
De um lado do ringue, algumas mulheres ouvem: "Você não precisa de homem." Do outro, alguns homens ouvem: "Não confie em mulheres." Já ouviu isso em algum lugar? Amigos, youtube...? Feminismo e redpill são movimentos diferentes, com histórias diferentes, pautas diferentes. Mas suas versões mais radicais, aquelas que cabem num vídeo de trinta segundos com música dramática, podem chegar ao mesmo resultado: homens contra mulheres, mulheres contra homens, e ninguém dividindo o aluguel. É o equivalente social de dois vizinhos construindo muros cada vez mais altos. No fim, nenhum dos dois consegue pegar o pacote que o entregador deixou na casa do outro.

Torne as pessoas descartáveis
A internet colocou milhares de pessoas na palma da nossa mão. E como todo mundo sabe, quando algo está na palma da mão e não funciona, a gente troca. Se uma conversa não rende, existe outra. Se um encontro não agrada, existe outro perfil. Se o crush não respondeu em quinze minutos, existe uma fila inteira esperando, ou pelo menos é o que o aplicativo quer que você acredite. Com tantas opções, muita gente deixa de tentar consertar uma relação. Afinal, consertar dá trabalho, exige conversa, paciência e ouvir o outro reclamar da louça. Trocar, por outro lado, é a um deslizar de dedo de distância.

A lógica fica simples: escolha, use, enjoe, troque. É praticamente um manual de fast-food aplicado ao coração. Só que ninguém avisou que, no fim, todo mundo acaba virando produto, e produto vencido vai para a prateleira da solidão. Afinal, quem descarta, também é descartado, é a lei do retorno.

Transforme a vida em vitrine (ou: poste, logo existes)
Antes, construir uma família era visto como uma grande conquista. Hoje, dinheiro, carreira, viagens, corpo bonito, festas e seguidores também viraram sinais de sucesso. Nada disso é errado, por si só. O problema começa quando precisamos mostrar tudo para provar nosso valor. "O que estamos construindo?" virou "O que eu tenho para mostrar?" Na época do Orkut e do começo do Facebook, as redes eram usadas para conversar, conhecer gente e entrar em comunidades, inclusive aquelas sobre o quanto você odeia acordar cedo e uma feita pra mim que guardo a 7 chaves. Hoje, você viaja e posta. Come e posta. Compra e posta. Respira e posta. A vida virou vitrine! O carro mostra sucesso. A roupa mostra status. A viagem mostra uma vida interessante. O celular mostra poder de compra. E o jantar? Bom, o jantar esfriou porque ninguém come antes de fotografar.

Comprar deixou de ser apenas necessidade e virou também uma forma de dizer: "Olhe para mim. Minha vida tem valor." Para o mercado, essa busca por aprovação vale muito dinheiro, e o mercado agradece de joelhos por você fazer sua parte! Porque uma pessoa sozinha também consome: streaming, delivery, jogos, aplicativos, pornografia, compras, viagens, redes sociais, terapia (necessária, diga-se) e mais um par de tênis que ela jura que vai usar para correr e ir academia. Quanto maior o vazio, maior a busca por prazer, atenção e distração. E aí fica a pergunta incômoda: quem ganha dinheiro quando milhões de pessoas tentam preencher esse vazio consumindo?

Menos famílias, menos filhos e mais apartamentos compactos
Muitas pessoas deixam casamento e filhos para depois. Dinheiro, trabalho, custo de vida, medo e relações instáveis também pesam, e pesam bastante! Em muitos países, as mulheres estão tendo menos filhos, e não é porque estão tendo menos relações sexuais. Se uma elite quisesse diminuir o crescimento da população, talvez não precisasse proibir ninguém de ter filhos. Bastaria tornar a família cada vez mais difícil de formar. Encarecer a moradia, precarizar o trabalho, saturar a rotina, transformar o outro em suspeito e o compromisso em armadilha. Pronto. Ninguém precisa assinar decreto nenhum, a conta não fecha, e a família não se forma. Não há conspiração comprovada nisso, há conveniência. E conveniência, quando dá lucro, costuma virar sistema. Dica: não é você.

Pareça feliz (spoiler: não é a mesma coisa)
Uma pessoa pode ser bonita, ter milhares de seguidores, viajar, usar roupas caras e frequentar lugares famosos. Pode mostrar uma vida perfeita e ainda chegar em casa sozinha, com o silêncio do apartamento e a notificação de um desconhecido curtindo uma foto de 2019. A internet mostra o que queremos que os outros vejam. Mas existe uma diferença fundamental.... parecer feliz não é ser feliz. Atenção não é amor. Seguidores não são família. Curtida não aquece a cama. Comentário não faz companhia no hospital. E aquele story de pôr do sol, por mais bonito que seja, não vai te ligar no domingo à tarde só para saber como você está. Doeu?

Junte as peças... homens contra mulheres, relações rápidas, pais ausentes, mães sobrecarregadas, menos casamentos, menos filhos, mais solidão, mais comparação e mais consumo. Isso não prova que um único grupo controla tudo. Conspirações simples raramente explicam problemas complexos, e a vida real é mais bagunçada do que um documentário da Netflix. Mas, dentro dessa hipótese, existe uma pergunta que vale mais do que qualquer resposta pronta:

Quem ganha quando paramos de construir juntos e começamos a consumir sozinhos?
Ganha o aplicativo de relacionamentos. Ganha a marca. Ganha o delivery de comida. Ganha a plataforma que lucra com a sua atenção enquanto você rola a tela às duas da manhã. Ganha quem vende o remédio para o vazio que ele mesmo ajudou a criar. Perde quem poderia estar dividindo a conta, o sofá, as piadas internas e aquele silêncio confortável de quem está com alguém que vale a pena. Não porque precisa, mas porque escolheu.

No fim, talvez a guerra dos sexos não seja uma guerra de verdade. Talvez seja um teatro muito bem produzido com dois atores brigando no palco e uma plateia pagando ingresso para assistir. E enquanto brigamos lá em cima, alguém, lá embaixo, está contando o dinheiro.

E você, vai continuar comprando o espetáculo ou vai tentar conversar com quem está do outro lado do palco?

Assista ao episódioHang the DJ da série Black Mirror, onde um aplicativo de relacionamento que prevê a "data de validade" de um relacionamento.

Leia:

A Busca Pelo Outro – Patrick Fernando
Um romance em tons de jazz e poesia – Patrick Fernando
Editora: Clube dos Autores

Patrick Fernando

Patrick Fernando

Graduado em Ciências Econômicas e Gestão Comercial por instituições privadas.
Intercambista em países como Chile, Irlanda, Polônia e Inglaterra.
Escritor.
LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/patrick-fernando-210613111/