
Você já percebeu que, nos dias de raiva, o portão de casa parece trancar com mais força, o pote de manteiga insiste em escorregar da mão e até a tampa da caneta decide se sacrificar em nome da sua raiva? Se a sua resposta for “sim”, eu preciso te apresentar um conceito que vai fazer você rir de nervoso e, talvez, pedir desculpas ao seu travesseiro: A agressão deslocada.
Calma, eu explico. Imagine a seguinte cena: Seu chefe, numa reunião que poderia ter sido um e-mail, resolve dar um show de microgerenciamento na frente de todo mundo. Você engole sapo, boi, jacaré e uma pequena parte da sua dignidade. Aí chega em casa, e o seu cachorro, a criatura mais leal e inocente do universo late uma vez. Uma única vez. E você, que nunca levantou a voz para aquele ser de quatro patas, solta um “QUIETO, BOLINHA!” que faz a vizinhança inteira achar que você está exorcizando o animal. Se identificou com a cena? Parabéns. Você acaba de praticar Agressão Deslocada. É tipo escorregar no chão molhado e, em vez de culpar a lei da gravidade, chutar a parede. A parede não fez nada. Ela só estava lá, sendo parede.
O professor Pedro Calabrez, do canal Neurovox (que, aliás, deveria ser disciplina obrigatória na escola da vida), explica esse fenômeno com uma clareza que chega a ser desconfortável. Nosso cérebro, essa massa de três quilos que acha que manda em tudo, tem um sistema de resposta ao estresse que, diante de uma ameaça percebida, quer lutar ou fugir. O problema é que, no mundo civilizado, a gente não pode dar um soco no chefe, nem fugir correndo da reunião (embora a vontade seja de pular a janela como um super-herói de quinta categoria). Então, o cérebro faz o que qualquer pessoa faria com uma panela de pressão sem válvula... Explode no primeiro alvo disponível!
E é aí que entra o ponto triste e cômico da coisa. O alvo disponível raramente é o culpado. É o garçom que demorou dois minutos a mais para trazer o suco. É a sua esposa que perguntou “como foi o dia?” no tom errado. É o motorista do ônibus que fechou o sinal no amarelo sem nem mesmo perceber (já ouviu falar em pontos cegos em veículos grandes?). Nenhum deles tem culpa pelo seu cortisol em chamas. Mas, como dizem por aí, o que é barato sai caro — e, nesse caso, o que é disponível leva a culpa.
E não para por aí. A agressão deslocada é uma artista dinâmica, capaz de se apresentar nos palcos mais variados do cotidiano. Sabe quando você está no trânsito, aquele engarrafamento de uma hora para percorrer três quilômetros, e alguém buzina atrás de você? Imediatamente, você xinga a mãe, o pai, o tio e até o gato do motorista de trás. Sendo que, na real, a raiva era do prefeito que não fez a porcaria do viaduto. Ou do universo, que fez chover justamente na hora do rush. Mas o motorista de trás estava ali, disponível, vulnerável, buzinando para o trânsico, não para você (você não é tão especial assim). E você soltou um repertório de insultos que faria um caminhoneiro corar.
A panela que queima
Você está cozinhando, distraído com os problemas do trabalho, e o arroz gruda no fundo. Em vez de culpar a sua própria distração, você olha para a panela com um ódio profundo, como se ela tivesse, deliberadamente, decidido arruinar o seu jantar. A panela não tem cérebro, não tem vida, mas naquele momento você jura que ela tem más intenções. E, num ato de ódio, joga a esponja na pia com uma violência que assustaria um lutador de MMA vencedor do cinturão de prata. A esponja, coitada, voa, quica e cai no chão. E você ainda resmunga: “Também, essa esponja não serve para nada”. A esponja, que só estava ali, tentando ser uma esponja.
E a tecnologia, ah, a tecnologia... O computador que trava bem na hora de salvar o arquivo. O celular que descarrega quando você mais precisa. O aplicativo de banco que “esqueceu” a sua senha pela terceira vez. Quem nunca ameaçou jogar o notebook pela janela? Quem nunca sussurrou, entre dentes, um “eu te odeio” para o roteador de internet, como se ele fosse um inimigo pessoal que sabota os seus planos secretamente? O roteador, só está ali, piscando suas luzinhas verdes, sem a menor capacidade de sentir culpa ou arrependimento. Mas, na sua cabeça, ele é o vilão do século.
Humor e solução
E o humor entra justamente aí, na constatação de que somos, muitas vezes, ridículos sem perceber. Quem nunca brigou com um aplicativo de banco e, no auge da raiva, digitou a senha errada três vezes, foi bloqueado e culpou o “sistema”, como se o aplicativo tivesse sentimentos e estivesse pessoalmente conspirando contra você? A agressão deslocada é aquele momento em que a gente olha para uma torradeira e diz: “Você está me tirando!”. E a torradeira, coitada, só queria tostar pão (eu não gosto, por isso, nunca briguei com uma).
Agora, a parte informativa e, espero, que gere impacto pra você. Reconhecer esse mecanismo é o primeiro passo para não se tornar o vilão da própria história. Quando a raiva aponta para o alvo errado, ela não resolve o problema original. Ela só cria um novo problema, geralmente com plateia e direito a climão no jantar. O professor Calabres, com aquela didática que faz a gente se sentir menos primata e mais gente, mostra que nomear a emoção e entender sua origem é quase como dar um zoom no mapa antes de sair correndo. Você percebe que o trânsito não te odeia, que a chuva não é uma vingança cósmica e que o pote de manteiga apenas é escorregadio por natureza. Nada pessoal!
Então, da próxima vez que a vontade for a de chutar o balde, tente, por um instante, perguntar: “Esse balde é meu ou é do meu chefe?”. Se for do chefe, devolva-o educadamente, de preferência em forma de planilha. Se for seu, lembre-se de que o balde também é vítima. E, principalmente, respire. O cérebro agradece, o cachorro agradece, a panela agradece, o roteador agradece e a parede, coitada, finalmente poderá descansar em paz.
Afinal, como diria qualquer pessoa que já brigou com um objeto inanimado e perdeu: o problema nunca foi a caneta. A caneta só caiu porque você jogou. E o trânsito, caro leitor(a), sempre esteve lá. Ele não acordou hoje com o objetivo de arruinar a sua vida. Ele só é o trânsito. E você, no fundo, sabe que a raiva era do seu chefe. Fácil falar, e sim, pode ser fácil executar, pois você não nasceu sabendo andar, precisou cair diversas e, ainda tropeça, mas, já domina a arte!
Assista:
(579) NeuroVox - YouTube – Pedro Calabrez – NeuroVox
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