
Londres não se revela de imediato, ela se insinua”. Ouvi essa frase em programa de rádio em São Paulo certa vez. Cheguei numa tarde de fevereiro com o céu cor de chumbo e uma garoa fina que parecia ensaiar uma chuva que nunca vinha por completo. Era minha segunda vez, ou, primeira, já que apenas tinha feito uma escala vindo do Canadá com destino final a Irlanda, e eu carregava na bagagem mais expectativas do que roupas adequadas para o clima gelado. No aeroporto de Lutun nas proximoidade de Londres, peguei um ônbus que levaria direto para o centro da capital inglesa e, perto da minha hospedagem, um hotel com quarto pequeno mas aconchegante tinha um bilhete de boas-vindas, uma xícara e uma xaleira elétrica com 5 sachês de chá, afinal, chá e Londres são inseparáveis.
O cheiro da cidade antiga
A primeira coisa que me impactou não foi visual, foi olfativa. Londres tem um cheiro diferente, uma mistura de chuva recente com pedra úmida, fumaça de chaminés centenárias e um leve toque de castanhas torradas que vêm dos carrinhos de rua, é difícil de descrever. Desci rumo ao Hyde Park e fiquei parado na calçada, respirando como quem degusta um vinho caro. As folhas começavam a amarelar, e os esquilos, absolutamente sem cerimônia, aproximavam-se dos transeuntes como se fossem os verdadeiros donos do parque. Era a primeira que eu estava vendo eles tão de perto.
Caminhei sem destino por quase duas horas. Deixei que a cidade me guiasse, me sentia seguro, mas, mantinha a atenção a qualquer suspeita. Passei pelo Palácio de Buckingham sem planejar, e dei comigo no meio de uma multidão de turistas que fotografavam um guarda de expressão impassível. O soldado usava um casaco de lã grossa, algo que nem o frio da Irlanda tinha me preparado.
O chá e o tempo suspenso
No segundo dia, resolvi fazer algo que sempre critiquei nos outros em São Paulo na região da avenida Paulista, agir como turista. Comprei um passe para o London Eye e enfrentei a fila com paciência de monge. Lá do alto, a cidade se organizou diante de mim como um mapa vivo. O Tâmisa cortava a paisagem como uma serpente prateada, refletindo um sol tímido que surgia entre as nuvens. Avistei o Big Ben, o Parlamento, a Tate Modern. Mas o que mais me comoveu não foram os monumentos, foi o ritmo. Londres pulsa num compasso estranho, ao mesmo tempo frenético e ordenado. As pessoas andam rápido, como em São Paulo, mas respeitam as faixas de pedestres. Os ônibus vermelhos de dois andares deslizam como artérias num corpo gigantesco. Ônibus que por sinal assim como na Irlanda, foi algo que sempre me encantou, pois passear pela cidade no segundo andar daquelas máquinas é uma experiência que mesmo sendo rotineira em meu intercâmbio, seguia sendo incrível. Não havia melhor forma que andar pela cidade. À tarde, refugiei-me numa casa de chá perto de Covent Garden. O lugar era minúsculo, com paredes forradas de papel floral e uma senhora de cabelos brancos que servia torradas com geleia de framboesa como se estivesse recebendo a realeza. Pedi um Earl Grey e fiquei observando a chuva, fina e persistente, batendo nos vidros da janela. Havia um pianista de rua tocando algo mas, não sou tão culto ao ponto de identificar nada mais que um bom rockroll ou, músicas da minha infância. Naquele instante entendi que viajar não é sobre checklists de monumentos, é sobre esses momentos em que a alma se aquieta e a cidade nos adota por um instante.
O sonho vermelho e branco em Holloway
O céu continuava cinza, mas havia em mim uma ansiedade de criança que há muito tempo eu não sentia. Peguei o metrô na Piccadilly Line e desci na estação Holloway Road com ajuda do Google MAPS. Bastou sair da catraca para entender que aquele não era um bairro qualquer. As paredes da estação exibiam murais com o canhão estampado, e à minha frente, uma multidão vestida de vermelho e branco caminhava numa direção única, como peregrinos rumo a um templo. Eu era um deles. Apesar da camisa sem escudo, meu coração já vestia o manto
O Emirates Stadium surgiu no horizonte como uma nave espacial pousada entre casas que vikings de tijolos. Imponente, mas sem arrogância. Moderno, mas enraizado. Comprei um cachecol de um vendedor na rua, aquele vermelho com o nome do clube em letras brancas que eu só vi pela televisão em madrugadas brasileiras. Coloquei-o no pescoço e senti o peso simbólico de um pertencimento, algo diferente quando vou aos jogos do São Paulo no estádio do Morumbi. Eu não estava mais apenas visitando, eu estava voltando para casa, mesmo que nunca tivesse estado ali antes.
No dia seguinte, fiz o tour do estádio com um guia chamado George (eu acho), um senhor de bigode farto e olhos claros que pareciam ter visto todos os gols da história. Ele nos levou pelo túnel que desemboca no gramado, e quando pisei na beira do campo, confesso.... as pernas tremeram, senti os olhos lacrimejarem. O verde era de um viço quase irreal, as cadeiras vermelhas formavam um anfiteatro de sonhos, e o silêncio da arquibancada vazia paradoxalmente gritava memórias. Fechei os olhos e tentei ouvir os fantasmas de Henry, Bergkamp, Wright. Imaginei o rugido de sessenta mil vozes explodindo no estádio. Abri os olhos com a estranha sensação de que o futebol, naquele instante, deixava de ser esporte e virava liturgia. Liturgia, termo que define aquilo.
Sentei-me no banco da sala de imprensa onde Arsène Wenger passara anos respondendo a jornalistas, e ali fiquei por um minuto inteiro, calado, absorvendo a atmosfera. Toquei a placa com o emblema do clube na entrada do vestiário. Vi as camisas penduradas, os nomes de jogares que eu só via pela TV, e agora ao alcance dos meus dedos. Quando o tour terminou, George me deu um tapinha no ombro e disse: "Once a Gunner, always a Gunner." Sorri, e a frase ficou ecoando pelo resto da viagem, mesmo que naquele momento eu não tivesse entendido tudo, pois o meu inglês estava lento e, em construção.
A noite dos fantasmas e do teatro
A terceira noite foi dedicada ao West End. Comprei um ingresso para uma peça que estava em cartaz há anos e que decidi assistir de ultima hora. O teatro era antigo, com cadeiras de veludo vermelho e lustres de cristal que pareciam testemunhas silenciosas de milhares de aplausos. Quando as luzes se apagaram e as primeiras notas da orquestra soaram, senti um arrepio que não era frio, era pertencimento, mais intenso, mais silencioso e mais puro do que senti na visita ao esádio do Arsenal. Eu estava ali, no coração do mundo, vivendo algo que até então só existia na minha imaginação.
Na saída, a noite londrina me abraçou com sua brisa úmida. Caminhei pelas ruas de paralelepípedos, passei por um pub chamado The Lamb & Flag, que existe desde 1772, e entrei sem pensar. Pedi uma cerveja escura que não lembro o nome, não gostei rs, era amarga de mais, mas, eu não podia fazer desfeita e fiquei conversando com um brasileiro que estava em Londres a 3 anos que junto com seu amigo, um argentino que me contou histórias das experiências que viveram nada cidade durante todo esse tempo, bem como sugestões de lugares que turistas não conheciam, como pubs e parques mais afastados do centro.
O silêncio das igrejas e o grito das cores
Eu contrariei o roteiro óbvio e fui visitar uma igreja esquecida pelos guias turísticos. St. Bartholomew the Great, em Smithfield, é uma joia normanda que sobreviveu ao Grande Incêndio e às bombas da segunda guerra, mesmo em rígida criação em que fui doutrinado a nunca pisar em outros templos religiosos que não fosse o que eu frequentava ou, Deus ficaria muito enfurecido comigo, eu decidi a crença de lado e entrei. Entrei e o silêncio era tão denso que meus passos ecoaram como se eu estivesse profanando algo sagrado. Sentei-me num banco de madeira escura e fiquei ali, sem rezar, apenas ouvindo o nada. Fazia tempo que eu não ouvia o nada. A cidade parecia distante, embora estivesse a poucos metros dali. Entendi que Londres também é isso: um refúgio de quietude para quem sabe procurar. Na saída, o contraste foi violento e maravilhoso. Caminhei até Shoreditch, onde os muros explodem em grafites de artistas do mundo inteiro. Cada parede era uma tela, cada beco uma galeria a céu aberto. Fotografei um mural imenso de uma mulher com cabelos de constelações, e um rapaz de moletom rosa me disse que o artista era brasileiro. Sorri com orgulho, como se fosse eu o autor. O mundo é minúsculo quando a arte o costura.
A despedida e o que ficou
No último dia, o sol finalmente venceu as nuvens. Tomei café da manhã num banco de praça em frente à Torre de Londres, vendo as joias da coroa refletirem o brilho da manhã. Um corvo passou perto de mim, arrogante, como se soubesse da lenda que diz que a monarquia cairá quando eles partirem. Não partiu. Ficou ali, me encarando, como se me dissesse que eu também poderia ficar. O voo de volta para Dublin partia às seis da tarde. No trem para o aeroporto, revi mentalmente cada dia como quem folheia um álbum que ainda está sendo impresso. Londres não me deu tudo de uma vez; ela me deu em doses homeopáticas, gota a gota, para que eu nunca me esquecesse. Deixei para trás lugares que não visitei, promessas que ficarão para uma próxima vez. Mas levei comigo algo que nenhuma foto pode capturar: o perfume da cidade antiga, o som do piano na chuva, o silêncio da igreja esquecida, o sabor do chá que me acolheu como um abraço, e o vermelho do Emirates gravado na retina como uma paixão que não se explica, apenas se sente.
O retorno à ilha esmeralda
O voo durou pouco mais de uma hora, mas foi tempo suficiente para que a mente começasse a processar a transição. As luzes de Londres foram ficando para trás, pequenas como estrelas caídas, até que o avião atravessou um manto de nuvens e tudo virou breu. Fechei os olhos e, quando os abri, as primeiras manchas verdes da Irlanda já se espalhavam lá embaixo como uma colcha de retalhos esmeraldinos. Aterrissar em Dublin foi como ser abraçado por uma calma que eu esquecera que existia.
Desci do avião e o ar irlandês me recebeu com sua frescura característica, aquele vento úmido que parece sempre carregar um leve cheiro de turfa queimada. O sotaque cantado dos irlandeses no aeroporto soava como música familiar. Em Londres, cada "mind the gap" do metrô era um comando seco e metálico; em Dublin, o motorista do ônibus para o centro da cidade me cumprimentou com um "How's the craic, lad?" que me fez sorrir antes mesmo de encontrar o assento.
O trajeto de volta para a acomodação onde eu morava durante o intercâmbio foi um filme mudo passando pela janela. As ruas de paralelepípedos, os pubs de fachada colorida com placas em gaélico, os muros de pedra cobertos de hera, a chuva fina que começou a cair como uma benção silenciosa. Tudo era familiar, e no entanto, meus olhos viam com nova nitidez. Londres havia ajustado o foco da minha percepção. Eu partira quatro dias antes ainda me sentindo um estrangeiro na Irlanda, voltava agora com a sensação de estar retornando para casa.
A chave girou na fechadura do pequeno apartamento em Rathmines. A cafeteira estava exatamente onde eu a deixara, o livro de Yeats ainda aberto na página 42 sobre a mesa de cabeceira, a manta de lã que eu comprara no mercado de Temple Bar dobrada no sofá. Nada mudou, e ainda assim tudo mudou. Sentei-me na cama e tirei da mochila o cachecol vermelho do Arsenal. Pendurei-o na cadeira e fiquei olhando para ele por um longo minuto. quatro dias em Londres haviam sido um parêntese luminoso, um sonho acordado de cartões-postais e emoções intensas. Mas a Irlanda era a realidade que me sustentava, o chão onde eu estava fincando raízes, o lugar onde eu aprendia diariamente o significado de estar longe para me encontrar.
Na manhã seguinte, acordei com o som de gaivotas. Preparei um chá preto, não mais o Earl Grey sofisticado de Covent Garden, mas o Barry's Tea forte e reconfortante que os irlandeses bebem como quem reza. Saí para caminhar pelo St. Stephen's Green, e as folhas de outono dançavam no vento como confetes de uma festa silenciosa. Pensei em Londres, no Tâmisa, no Emirates, na igreja normanda, no grafite de Shoreditch. E entendi, com a clareza que só as viagens proporcionam, que a beleza de partir está justamente na alegria de regressar.
Era uma vez em Londres. Cinco dias que valeram uma vida. Mas a história continua sendo escrita em Dublin, entre goles de chá, leituras de Yeats e o aprendizado diário de que o intercâmbio não é apenas sobre conhecer lugares novos, mas sobre se reconhecer neles. Londres foi um capítulo inesquecível. A Irlanda, essa ilha verde que me adotou, é o livro inteiro.
Londres me mostrou que uma metrópole pode ser sim linda, clássica e encantadora ao mesmo tempo que rápida a frenética. Londres merecia um texto poético, com palavras selecionadas para passar emoção, pois assim com um grande amor que passa e nossa vida, Londres é intensa e bela de mais para não beleza e intensidade quando se fala dela.
Ouça:
Tudo que vai – Capital Inicial
Uma Gota no Oceano – NX Zero
