
É mito ou verdade a ideia de que a progesterona é exclusiva do organismo feminino e que homens produzem apenas testosterona? A ciência explica que homens também produzem progesterona - ainda que em menores quantidades - e que o hormônio desempenha funções essenciais no equilíbrio hormonal, inclusive participando do processo de produção de espermatozoides.
Segundo a ginecologista Karin Rossi, do Hospital Santa Rita, a ideia de que determinados hormônios pertencem a apenas um gênero é um erro comum. Todos os hormônios sexuais estão presentes em homens e mulheres. O que muda são as concentrações e a função predominante em cada organismo”, explica a especialista.
A progesterona, por exemplo, é um hormônio esteroide derivado do colesterol e desempenha papéis no corpo masculino. Nos homens, ela participa do equilíbrio entre estrogênios e andrógenos, regula processos inflamatórios e integra o eixo adrenal, sendo importante na resposta ao estresse. Além disso, atua no sistema nervoso central, com efeitos ansiolíticos e sedativos leves, modulação do sono via receptores GABA, neuroproteção e influência direta sobre humor e cognição. “A progesterona também é relevante para a produção de espermatozoides, o que desmonta completamente a ideia de que sua presença seria sinal de ‘falta de masculinidade’”, ressalta Karin Rossi.
No organismo feminino, a progesterona tem funções mais conhecidas, mas igualmente complexas. Ela prepara o endométrio para a gestação, regula o ciclo menstrual, reduz a contratilidade uterina e atua no desenvolvimento das estruturas mamárias, especialmente na diferenciação dos lóbulos e alvéolos. É também considerada o principal hormônio da gravidez. No sistema nervoso central da mulher, seus efeitos são semelhantes aos observados nos homens, contribuindo para o equilíbrio do sono, do humor e da cognição.
A progesterona é produzida em diferentes partes do corpo. Nas mulheres, uma pequena quantidade é fabricada continuamente pelas glândulas adrenais, onde ela funciona como etapa intermediária para a produção de outros hormônios importantes, como o cortisol e a aldosterona. “No entanto, a principal fonte de progesterona são os ovários, mais especificamente o corpo lúteo, que se forma após a ovulação. Estimulado pelo hormônio luteinizante (LH), esse tecido transforma o colesterol em pregnenolona e progesterona. Além disso, o corpo lúteo também produz androgênios e estrogênios, o que mostra que a produção de hormônios funciona de forma integrada, dependendo do metabolismo de cada órgão endócrino e não somente separada por gênero”, pontua a ginecologista do Hospital Santa Rita.
Karin Rossi explica que nos homens pequenas quantidades de progesterona circulam a partir dos testículos e do córtex da adrenal. “Já a testosterona, o andrógeno mais ativo, é produzida principalmente nas células de Leydig dos testículos, também a partir do colesterol. As adrenais produzem andrógenos com cerca de um quinto da atividade da testosterona testicular, reforçando que a potência hormonal está ligada à origem e às enzimas envolvidas, e não à exclusividade do hormônio em si”, afirma a médica.
“O que diferencia os órgãos endócrinos não é o ponto de partida da síntese hormonal, mas o conjunto de enzimas que direciona as vias metabólicas”, destaca. “A progesterona é um esteroide C21 e um intermediário essencial na biossíntese de praticamente todos os hormônios esteroides. Sem ela, não haveria equilíbrio hormonal em nenhum dos sexos.”
Carlos Campagnaro, ginecologista e professor do Unesc, reforça que não existem hormônios exclusivos de um único gênero. “Testosterona, estrogênio e progesterona estão presentes em ambos os sexos. O que muda são as concentrações e o papel predominante em cada organismo. Associar determinado hormônio à masculinidade ou à feminilidade é um erro científico”, afirma.
No campo clínico, a progesterona tem uso consolidado na medicina. Ela é amplamente empregada para regular o ciclo menstrual, tratar insuficiência lútea, endometriose e sangramentos uterinos disfuncionais, além de ser essencial no suporte à gestação e em tratamentos de reprodução assistida. “Na terapia hormonal da menopausa, por exemplo, a progesterona é fundamental para proteger o endométrio dos efeitos do estrogênio, reduzindo riscos”, explica o ginecologista.
Apesar de ser considerada segura quando bem indicada, a progesterona exige acompanhamento médico. “O uso sem prescrição não é recomendado”, alerta Campagnaro. Entre as principais contraindicações estão histórico de câncer hormônio-dependente, doenças tromboembólicas ativas, sangramentos vaginais sem diagnóstico e doenças hepáticas graves. Efeitos como sonolência, retenção de líquidos, alterações de humor e dor de cabeça podem ocorrer, especialmente quando utilizada de forma inadequada.
