O Grito Silenciado da África: Por que o Massacre de Cristãos Permanece Invisível ao Mundo

Coluna: Patrick Fernando

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O Grito Silenciado da África: Por que o Massacre de Cristãos Permanece Invisível ao Mundo

Enquanto o mundo debate polarizações políticas e crises em regiões estratégicas como o leste europeu, sudoeste da Ásia, e no Oriente Médio, uma tragédia de proporções bíblicas corre à margem dos holofotes. Da savana nigeriana aos desertos do Sudão, comunidades cristãs inteiras estão sendo dizimadas, vilarejos incendiados e famílias despedaçadas. Os números são estarrecedores, mas o silêncio que os encobre é ainda mais perturbador. Por que a comunidade internacional, tão rápida em condenar outras violações, parece fingir que nada acontece na África Subsaariana? E por que as grandes mídias ocidentais tratam o tema como nota de rodapé?

O que está acontecendo: um genocídio em câmera lenta
A Nigéria lidera há anos a trágica lista de países mais letais para cristãos. Segundo o relatório da organização Portas Abertas referente a 2023, 4.118 cristãos foram assassinados por motivação religiosa no mundo, e 90% dessas mortes ocorreram em solo nigeriano. Aldeias inteiras no estado de Plateau, em Benue e no sul de Kaduna são atacadas à luz do dia. Somente em dezembro de 2023, ataques coordenados contra comunidades cristãs no condado de Mangu, no estado de Plateau, deixaram cerca de 200 mortos, a maioria mulheres e crianças. Fiéis são executados dentro de igrejas, seminaristas são sequestrados e famílias camponesas perdem tudo. A letalidade não é fruto de conflitos tribais genéricos, há um padrão, um alvo e uma ideologia por trás. De acordo com dados compilados pela ONG Portas Abertas, mais de 3 milhões de nigerianos estão deslocados internamente devido à violência de grupos extremistas e de milícias que miram comunidades cristãs.

Outro ponto que eleva ainda mais ao extremo é a violência sexual, nesse cenário, não é um efeito colateral, é uma tática de guerra calculada. Em campos de deslocados no nordeste da Nigéria, a Anistia Internacional documentou que mulheres e meninas cristãs resgatadas do cativeiro do Boko Haram e do ISWAP frequentemente carregam filhos frutos de estupros sistemáticos, planejados pelos extremistas para “quebrar” comunidades pela miscigenação forçada. Durante os ataques de milícias fulani, dezenas de relatos colhidos por agências humanitárias descrevem meninas de até 12 anos sendo violadas coletivamente diante de suas famílias antes de terem suas casas incendiadas. Muitas dessas vítimas nunca denunciam, mas carregam o trauma em silêncio, rejeitadas pelo estigma, enquanto os agressores gozam de total impunidade.

No Sudão, desde a eclosão da guerra civil em abril de 2023 entre o Exército nacional e as Forças de Suporte Rápido (RSF), os cristãos enfrentam uma dupla ameaça. A Agência Fides, serviço de notícias das Pontifícias Obras Missionárias, informou que ao menos 80% das igrejas em Cartum foram danificadas, saqueadas ou totalmente destruídas. Em cidades como El Geneina, na região de Darfur, testemunhas relataram que milícias árabes aliadas à RSF apoiadas pelo Emirados Árabes Unidos, atacaram bairros cristãos e de outras minorias religiosas, matando civis e queimando templos. A Organização Internacional para as Migrações (OIM) estima que o conflito já deslocou mais de 8 milhões de sudaneses, um número recorde na África. Líderes cristãos foram marcados para morrer, e símbolos religiosos viraram alvo explícito.

Nesse mesmo conflito sudanês, o estupro foi elevado a instrumento de limpeza étnica e religiosa. A ONU Mulheres e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos confirmaram que, nos primeiros meses de guerra, houve um aumento de mais de 50% nos casos de violência sexual em comparação com o ano anterior. Mulheres cristãs e de outras minorias são capturadas pelas RSF e submetidas a estupros coletivos, muitas vezes acompanhados de gritos de guerra sectários. Freiras e catequistas foram sequestradas e violentadas repetidamente, e relatos de médicos sudaneses indicam que meninas de até 9 anos deram entrada em hospitais de campanha com lesões gravíssimas após ataques. A estratégia é clara: aterrorizar, humilhar e forçar o êxodo total das comunidades não islâmicas!

A tragédia não se restringe a esses dois países. Em Burkina Faso, Mali, Níger (países que sofreram golpes de estado) e norte de Moçambique, onde insurgências jihadistas avançam, cristãos são decapitados, queimados vivos ou expulsos de suas terras simplesmente por portarem um crucifixo. O Observatório para a Liberdade Religiosa na África registrou mais de 3.500 mortes violentas de cristãos em todo o continente em 2023, com um aumento de 45% nos incidentes contra igrejas e propriedades cristãs na região do Sahel em relação ao ano anterior. Em Moçambique, a Human Rights Watch documentou que mulheres cristãs capturadas por insurgentes islâmicos em Cabo Delgado são repetidamente estupradas e forçadas ao “casamento” com combatentes, um eufemismo para escravidão sexual. Aquelas que resistem são executadas e seus corpos deixados como aviso. Estima-se que mais de 360 milhões de cristãos sofram altos níveis de perseguição no mundo, e a África Subsaariana é hoje o epicentro dessa violência.

Quem são os grupos envolvidos nos massacres?
Na Nigéria, três atores principais se destacam. O Boko Haram, cujo nome significa “a educação ocidental é pecado”, comete atrocidades desde 2009 e foi responsável pelo sequestro de milhares de meninas cristãs. Somente o rapto das 276 estudantes de Chibok, em 2014, chocou o planeta, mas dezenas delas continuam desaparecidas. As que retornaram trouxeram consigo histórias horríveis de estupros diários, gravidez forçada e conversão religiosa sob tortura. Sua cisão, o ISWAP (Província do Estado Islâmico na África Ocidental), é ainda mais violenta e estrategicamente sofisticada. Em 2022, a organização reivindicou a decapitação de 42 agricultores cristãos no estado de Borno, e seus ataques se intensificaram desde então. Além deles, milícias de pastores fulani executam massacres com requintes de crueldade contra agricultores cristãos. Um relatório do Parlamento britânico de 2020 já alertava que, entre 2011 e 2019, esses ataques mataram mais de 10 mil nigerianos, a esmagadora maioria cristã. Apenas no estado de Benue, em 2023, mais de 300 pessoas foram assassinadas nesses ataques, e 150 igrejas foram incendiadas. Em ataques a vilarejos predominantemente cristãos, os testemunhos de violência sexual são quase unânimes, meninas e mulheres são estupradas em frente aos maridos e pais, e muitas são levadas como espólio.

No Sudão, as RSF e milícias árabes aliadas, muitas herdeiras dos janjawid que cometeram genocídio em Darfur nos anos 2000, agem com lógica de limpeza étnica e religiosa. A ONU documentou que, entre abril e novembro de 2023, pelo menos 4 mil civis foram mortos no conflito, mas os números reais podem ser muito maiores. Comunidades cristãs, que já eram minoria mesmo antes da guerra, foram praticamente varridas de regiões inteiras. A violência sexual é tão disseminada que um relatório do Sudan Women's Rights Group estima que 70% das mulheres deslocadas sofreram algum tipo de abuso sexual, e líderes cristãs apontam que suas fiéis são deliberadamente visadas.

No Sahel, grupos ligados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico impõem uma interpretação brutal da sharia. Em Moçambique, a insurgência em Cabo Delgado já deixou mais de 5 mil mortos e 1 milhão de deslocados desde 2017; cristãos são decapitados e igrejas queimadas rotineiramente. O sequestro de meninas para servirem como escravas sexuais de combatentes tornou-se uma das marcas mais vis da violência jihadista na região. As fronteiras porosas e a fragilidade dos Estados permitem que esses grupos se fortaleçam.

Por que Estados Unidos, OTAN e grandes potências não interferem — e o fracasso russo na região
Eu fui repetitivo até agora, não atoa, pois algo me intriga muito. Após duas décadas de intervenções controversas no Oriente Médio, Afeganistão, Iraque, Líbia, o Ocidente desenvolveu uma profunda aversão a novos engajamentos militares na África. A “fadiga de intervenção” pois, os eleitorados americanos e europeus não querem ver seus soldados morrendo em conflitos que consideram distantes e insolúveis. Os corpos de cristãos nigerianos, infelizmente, não pesam nas urnas do ocidente!

Se a omissão americana e europeia é justificada pelo cansaço estratégico, a presença russa no continente africano escancara outro tipo de fracasso. o da ingerência que explora, mas jamais protege. A Rússia, por meio do antigo Grupo Wagner e, agora rebatizado como África Corps sob controle direto do Ministério da Defesa, expandiu rapidamente sua influência no Sahel e no Sudão nos últimos anos, vendendo-se como alternativa de segurança após a expulsão das tropas francesas. Seus soldados mercenários foram enviados para Mali, Burkina Faso, República Centro-Africana e Moçambique, com a promessa de combater o terrorismo jihadista que estavam encurralados pelos franceses. Em todos esses cenários, porém, os cristãos continuaram a morrer, e, em muitos casos, morreram ainda mais, mostrando o fracasso dos russos.

Em Moçambique, a passagem do Grupo Wagner por Cabo Delgado em 2019 foi um desastre ainda mais vergonhoso que na Ucrânia, onde boa parte do grupo foi eliminado. Contratados pelo governo para enfrentar a insurgência islâmica, os mercenários russos sofreram emboscadas, baixas pesadas e acabaram batendo em retirada, abandonando a população e deixando para trás toneladas de equipamentos militar para os insurgentes que por sinal, voltaram ainda mais ferozes, decapitando cristãos e ateando fogo a igrejas (afinal, estavam mais bem armados e mais motivados por derrotar os russos). O fracasso foi tão vexatório que o governo moçambicano recorreu posteriormente a forças de Ruanda e da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral, que obtiveram resultados mais efetivos que a Rússia. Na República Centro-Africana, a presença prolongada de mercenários russos não impediu que grupos armados continuassem atacando comunidades cristãs e muçulmanas, enquanto os homens de Wagner garantiam minas de ouro e diamantes para seus financiadores, afinal, prioridades, não é mesmo? (alerta de ironia).

No Sahel, a substituição das tropas francesas pelos mercenários russos não conteve o avanço jihadista, ao contrário, os grupos ligados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico ampliaram seu controle territorial. Relatórios da ONU e organizações de direitos humanos documentaram que as forças russas no Mali e em Burkina Faso executam civis indiscriminadamente em operações antiterrorismo em ações de desespero desorganizada, mas não protegem aldeias cristãs de massacres. A perseguição religiosa não consta de sua agenda, e os cristãos são abandonados à própria sorte.

No Sudão, o cinismo russo atinge seu ápice. Historicamente envolvido com o regime de Omar al-Bashir, o Kremlin manteve laços com as Forças de Suporte Rápido, justamente o grupo acusado de genocídio e violência sexual contra cristãos, por meio de acordos de exploração de ouro. O Grupo Wagner lucrou milhões com o contrabando de ouro sudanês para financiar a guerra na Ucrânia. Enquanto as RSF estupravam e matavam cristãos em Darfur e Cartum, Moscou fechava os olhos e seguia lucrando. A suposta defesa de “valores tradicionais” que o Kremlin alardeia em sua retórica internacional não inclui os cristãos africanos. Quando o patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, aliado de Vladimir Putin, lamenta a perseguição de cristãos no mundo, seu lamento é seletivo, ou seja, vale para a Ucrânia, mas não para a Nigéria ou o Sudão, onde a Rússia tem negócios a proteger.

Em suma, enquanto o Ocidente se omite por fadiga e cálculo, a Rússia atua, mas sua atuação é um fracasso absoluto. Sua presença não trouxe segurança, não salvou nenhuma comunidade cristã do massacre e não cessou um único estupro de guerra. Trouxe apenas mais violência, saques de recursos naturais e um silêncio cúmplice diante do genocídio. A conclusão é triste, para as potências globais, os cristãos da África Subsaariana não são aliados a defender, nem fiéis a proteger, são apenas números descartáveis num tabuleiro de xadrez geopolítico.

Por que as grandes mídias não falam disso?
Se a omissão política é calculada, o silêncio da mídia é ensurdecedor e, sintomático. Um estudo do Reuters Institute de 2023 revelou que conflitos na África Subsaariana recebem até 10 vezes menos cobertura nos principais telejornais ocidentais do que crises na Europa ou no Oriente Médio. Cristãos africanos mortos não geram comoção no público americano ou europeu da mesma forma que a guerra na Ucrânia ou o conflito em Gaza. A “hierarquia do sofrimento” opera de forma implacável.

Há ainda fatores estruturais: As redações internacionais encolheram drasticamente. Enviar correspondentes para o norte da Nigéria ou para Cartum é caro, perigoso e logisticamente complexo. Repórteres são alvos prioritários de grupos jihadistas para sequestros, em 2022, o Committee to Protect Journalists documentou que 11 jornalistas foram assassinados na Nigéria em uma década. A cobertura local depende de agências de notícias ou de fontes religiosas que a grande imprensa frequentemente vê com desconfiança, temendo ser associada a “pautas cristãs conservadoras”. Existe, além disso, um receio editorial de que reportagens sobre massacres de cristãos por extremistas islâmicos possam alimentar a islamofobia. A consequência perversa é que, para evitar um preconceito, invisibiliza-se um genocídio, e também se calam os estupros em massa que deveriam gritar por justiça. Você entende a lógica?

O que podemos fazer?
O primeiro passo é quebrar o silêncio. Que este artigo sirva como um grito de alerta. É preciso exigir que governos e organismos internacionais incluam a perseguição anticristã na pauta dos direitos humanos com a mesma urgência dedicada a outras causas. É fundamental apoiar organizações sérias que atuam no terreno, como a Ajuda à Igreja que sofre e a Portas Abertas, que levam auxílio humanitário, abrigo e esperança às vítimas, inclusive atendimento médico e psicológico às sobreviventes de estupro. Como leitores, compartilhar essa realidade, recusando a hierarquia perversa que decide qual sofrimento merece luto público e qual pode ser esquecido.

Enquanto o mundo desvia o olhar, o sangue africano clama do solo. E o silêncio sobre o corpo violado de suas filhas clama por justiça. Ignorá-los não é apenas omissão é cumplicidade.

Patrick Fernando

Patrick Fernando

Graduado em Ciências Econômicas e Gestão Comercial por instituições privadas.
Intercambista em países como Chile, Irlanda, Polônia e Inglaterra.
Escritor.
LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/patrick-fernando-210613111/