TDAH não é falta de esforço: quando a mente funciona diferente

Coluna: Linccon Fricks

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TDAH não é falta de esforço: quando a mente funciona diferente

Muito além da desatenção e do esquecimento, o TDAH pode afetar a organização, a impulsividade, as funções executivas e a forma como uma pessoa percebe a si mesma.

“Você precisa se esforçar mais.” “É só prestar atenção.” “Você é inteligente, mas é muito desorganizado.” “Se realmente quisesse, conseguiria.”

Frases como essas ainda fazem parte da realidade de muitas pessoas com Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH). O problema é que, quando uma dificuldade de funcionamento é interpretada como preguiça, irresponsabilidade ou falta de interesse, a pessoa pode passar anos tentando provar que é capaz, muitas vezes sem compreender por que algumas tarefas que parecem simples para os outros exigem dela um esforço tão grande.

O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento. Embora a desatenção, a hiperatividade e a impulsividade sejam características conhecidas, o transtorno é muito mais amplo. Ele pode envolver dificuldades relacionadas às funções executivas, como planejamento, organização, gerenciamento do tempo, memória de trabalho, controle inibitório, flexibilidade e capacidade de iniciar e concluir tarefas.

Por isso, dizer que alguém com TDAH “não presta atenção” é uma simplificação. Em muitos casos, a questão não é a ausência de atenção, mas a dificuldade em regular a atenção de acordo com as demandas da situação. A pessoa pode permanecer profundamente envolvida em uma atividade de seu interesse e, ao mesmo tempo, apresentar enorme dificuldade para iniciar uma tarefa necessária, acompanhar uma rotina ou cumprir um prazo.

Essa diferença costuma gerar incompreensão.

Uma criança que se levanta constantemente em sala de aula não necessariamente está desafiando o professor. Um adolescente que esquece trabalhos não necessariamente é desinteressado. Um adulto que se atrasa, perde objetos, procrastina ou tem dificuldade para organizar compromissos não necessariamente é irresponsável.

Comportamentos precisam ser compreendidos dentro do funcionamento da pessoa e do contexto em que acontecem.

Isso não significa retirar a responsabilidade de quem apresenta TDAH. Significa compreender que responsabilidade e culpa são conceitos diferentes. A pessoa pode ser responsável por desenvolver estratégias, buscar tratamento e encontrar maneiras mais funcionais de lidar com suas dificuldades. Mas isso é diferente de acreditar que tudo acontece porque ela “não se esforça o suficiente”.

Existe também uma ideia equivocada de que o TDAH é um problema exclusivamente infantil. Na realidade, seus efeitos podem permanecer ao longo da vida, embora sua manifestação possa mudar conforme as demandas e responsabilidades aumentam.

Na vida adulta, o TDAH pode aparecer na dificuldade de administrar horários, organizar tarefas, cumprir prazos, controlar impulsos, manter uma rotina, lidar com múltiplas demandas ou finalizar projetos.

Muitas vezes, o adulto aprendeu estratégias para compensar suas dificuldades. Pode criar listas, alarmes, lembretes e rotinas rígidas. Ainda assim, pode sentir que precisa fazer um esforço muito maior do que as outras pessoas para manter sua vida organizada.

E existe outro aspecto que merece atenção: a maneira como essas experiências repetidas podem afetar a autoestima.

Imagine uma criança que durante anos ouve que é desatenta, preguiçosa, irresponsável ou que “tem potencial, mas não aproveita”. Com o tempo, essas mensagens podem ser internalizadas.

A dificuldade de organizar uma tarefa pode se transformar em “eu sou desorganizado”. O esquecimento pode se transformar em “eu não sou confiável”. As dificuldades acadêmicas podem se transformar em “eu não sou inteligente o suficiente”. A procrastinação pode se transformar em “eu sou preguiçoso”.

É nesse momento que precisamos olhar para além do sintoma.

A pessoa pode começar a desenvolver crenças disfuncionais sobre si mesma, influenciando sua autoestima, seus relacionamentos, suas escolhas profissionais e sua disposição para enfrentar novos desafios.

Em alguns casos, ela passa a evitar situações nas quais acredita que irá fracassar, criando um ciclo de dificuldade, frustração, autocrítica e desistência.

O diagnóstico de TDAH não deve ser utilizado para definir uma pessoa, tampouco para justificar todos os seus comportamentos. Ele deve contribuir para uma compreensão mais precisa de seu funcionamento e para a construção de estratégias adequadas às suas necessidades.

O tratamento pode envolver diferentes abordagens e profissionais, de acordo com as características e necessidades de cada indivíduo. A psicologia pode contribuir tanto para o desenvolvimento de estratégias relacionadas às funções executivas quanto para o trabalho com autoestima, regulação emocional, relacionamentos e crenças construídas ao longo da vida.

Porque, para algumas pessoas, tratar o TDAH não significa apenas aprender a lembrar compromissos ou organizar uma agenda.

Significa também reconstruir a maneira como elas enxergam a si mesmas.

Depois de anos ouvindo que eram preguiçosas, desorganizadas, distraídas ou irresponsáveis, talvez precisem descobrir que suas dificuldades não definem seu valor, sua inteligência ou seu potencial.

TDAH não é falta de esforço.

É um transtorno do neurodesenvolvimento que exige compreensão, estratégias adequadas e, quando necessário, acompanhamento especializado.

E talvez uma das mudanças mais importantes seja substituir a pergunta “por que você não consegue simplesmente se esforçar mais?” por uma pergunta muito mais produtiva:

“O que está dificultando seu funcionamento e quais estratégias podem ajudá-lo?”

Porque compreender não significa diminuir a responsabilidade. Significa criar condições para que a pessoa possa exercer seu potencial de uma maneira mais possível, funcional e saudável.

Donnie Allison

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